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Leo Nascimento: “A gente precisa de uma elite menos medíocre”

Publicado por Entrevistas

Leo Nascimento

São muitos os atributos do Leo. Veterinário, Chef de Cozinha, Enólogo, Naturalista, Salva-vidas, Surfista, Professor (dois mestrados), Agitador Cultural, Funcionário Público, Polemista e Boêmio – ainda que os dois últimos títulos pareçam contradizer o penúltimo. Ele dirigiu o IBAMA, a Fundação da Pesca do Estado do Rio e o Parque Nacional de Itatiaia, entre outros órgãos. Leo está completando 60 anos e se aposentando do serviço público, mas continua a agitar na área que parece a que ele mais gosta, a música popular brasileira. Promove eventos – projeções de filmes, palestras, etc – no Centro de Visitantes do Parque, que ele ainda administra, e no Café Finlandês, em Penedo. Foi no Café, por sinal, que eu e Joel Pereira conversamos com ele que, lá pelo final do papo, já exaltado, esbravejava contra a nossa elite e exaltava os mais pobres, “os que mais respeitam o Parque”. Leo falou também sobre os problemas de Itatiaia – ele, que escreveu o programa de governo de Luis Carlos e é seu amigo há 20 anos.

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GUSTAVO: Além de todos esses títulos, o Leo é a eminência parda do Ypê.
LEO: Isso aí de eminência parda está errado.
GUSTAVO: Mas então já foi.
LEO: Nunca fui. Sou só amigo do prefeito. Não tenho a mínima influência sobre ele como prefeito.
JOEL: Você não é colaborador na parte estratégica?
LEO: Não… Eu escrevi o programa de governo, porque não tinha ninguém para escrever, e ninguém queria ficar perto da pessoa que achavam que ia perder a eleição; como era meu amigo,  eu escrevi… O prefeito anterior não quis fazer a transição – e isso é um problema que o país vai ter que resolver, vai ter que obrigar as pessoas a fazerem a transição; a democracia tem que garantir isso. Mas o Jair não fez. Os funcionários mandaram uma tonelada de papéis e eu montei o governo, Secretaria por Secretaria. Hoje a gente se fala pouco. Meu trabalho no Parque é intenso, eu só analiso um documento ou outro quando ele me pede. Estou agora fazendo uma colaboração com a Secretaria de Saúde e com a Educação, mas que é mais uma parte social minha, como professor. Eu sou técnico, eu nunca fui político.
GUSTAVO: Conta um pouco da tua vida. Você é um menino do subúrbio do Rio, certo?
LEO: Eu sou suburbano de Campo Grande. Com 9 anos de idade eu tomei o meu primeiro porre. Foi em 1958, um ano em que me aconteceram três coisas importantíssimas: eu vi um programa com Vinícius de Moraes na rádio JB. Aí eu guardei o Vinícius para sempre. Conheço toda a obra dele e dei o nome de Vinícius ao meu filho. Vi também nesse ano o Brasil ser campeão do mundo, ouvindo no rádio, e lembro do time até hoje. Foi nesse dia que eu tomei o porre. E também nesse ano eu conheci a Silvinha Telles, porque eu tinha um tio que andava com Pixinguinha, Rosinha de Valença, que tocava violão, e eu vi a Silvinha Telles cantando bossa-nova, as músicas do Tom Jobim, que era uma pianista obscuro, de boate. E o cinema novo. E eu sempre vivi na praia. Meu primeiro trabalho foi de salva-vidas. Com 50 anos é que eu vim pra cá, pra escapar da cirrose.
JOEL: Por falar em Tom Jobim, eu li um negócio que você escreveu dizendo que a música Borzeguim o Tom fez em homenagem ao Parque Nacional, não é isso?
LEO: Isso é um factóide meu. Vou explicar: eu não cheguei aqui para ser Diretor do Parque; cheguei para ser gestor público, que eu também sou, para montar a Unidade Gestora do PNI. Quando cheguei, vi que estava nomeado diretor do Parque. Aí eu levei um choque: encarar incêndio, palmiteiro, e trabalhar sábados, domingos e feriados. Porque durante a semana o Parque é a coisa mais tranquila do mundo, mas sábados, domingos e feriados é um Deus nos acuda.
JOEL: Eu li também um pronunciamento seu dizendo que já que o Parque pertence a três estados, a polícia federal deveria se encarregar da repressão aos incendiários e palmiteiros. Isso foi pra frente?
LEO:  Espera aí… Quando eu cheguei eu não sabia que tinha palmiteiros, e eles estavam dentro do Parque. Já havia problemas com um chefe da fiscalização, um grande funcionário, que tinha matado um palmiteiro em confronto direto. Aí eu fiz os dez mandamentos para não se comer palmito, cheguei no Jornal Nacional através de uma reportagem que o Marcos Sá Correa fez comigo. Com isso, mexi no bolso dos palmiteiros, mas em compensação fui ameaçado de morte. Fiquei um ano sem sair do Parque. E quanto aos incêndios, teve um imbecil de um estudante de engenharia da USP que às duas horas da tarde, no coração da parte alta do Parque, ali nas prateleiras, foi acender uma caixa de fósforos. Não chovia há três meses e lambeu 800 hectares do Parque. Eu chamei todo mundo e levamos três dias para apagar aquilo. É um dos piores momentos que um diretor do Parque pode passar. Fiquei três dias sem dormir e depois mais 15. E o lance do Tom Jobim…
GUSTAVO: Deixa só a gente dar uma continuidade no negócio dos incêndios antes de você falar do Tom. A gente sabe que muitos incêndios começam no entorno do Parque, com o pessoal da pecuária. Não seria importante um projeto de uma atividade alternativa para esses pecuaristas, como proteção do Parque?
LEO: É claro, isso aí tem que ser feito. Tem três causas de incêndio no Parque: um é o turista que bota fogo; outro é o cara que foi multado e bota fogo para se vingar; e outro é a agropecuária que bota fogo para plantar e acaba entrando no Parque, sem querer. Agora, os piores incêndios do Parque são pela maldade do homem, não pelo agricultor. Na minha época nós fundamos a Brigada de Incêndio do Parque, com o Marcão que dirigiu, que virou herói, já faleceu e, por minha sugestão, foi colocado o nome dele no posto três do Parque, que é o posto das Agulhas Negras. Marco Antônio Botelho, que está imortalizado no livro “Itatiaia, o Caminho das Pedras”, do Marcos Sá Correia, que daqui a cem anos vai ser a grande referência sobre o Parque, tanto de texto quanto de fotografia. E eu também vou ficar imortal porque escrevi o prefácio.
JOEL: Vamos voltar ao Tom Jobim? Você deu o nome do auditório do Parque de Tom Jobim.
LEO: Pois é. Eu levei um certo glamour para o Parque; levei a bossa-nova para lá. Eu levei o Roberto Menescal, dei o nome do auditório de Tom Jobim, levei o Sérgio Cabral, pai, o Rui Castro e a Helena Jobim, irmã do Tom, para uma mesa de debates em 2003. Botei o nome do Tom por causa de Águas de Março, Borzeguim, e aí eu criei esse factóide de que essa música tinha sido feita para o Parque. Eu era ligado ao Tom e quando cheguei aqui eu precisava de uma válvula de escape para segurar isso tudo, não é? Porque você tem que multar pessoas, é ameaçado de morte, as prefeituras e o estado não fazem o trabalho deles. Você tem que vir para fora do Parque pra resolver problemas e tem 30.000 hectares para resolver. E você fica ali praticamente ilhado. Então, como eu gosto de música, gastronomia, teatro, cinema, eu, envolvendo essa gente da cultura, me cercava de um respaldo maior, embora isso tenha feito muita gente dizer que eu era boêmio, vagabundo, carioca… Nêgo te rotula como vagabundo… Mas o Paulo Vanzolini, que é um dos maiores cientistas brasileiros, especialista em répteis, e é o autor de Ronda, está acabando com isso no documentário dele agora. Olha: eu dirigi vários órgãos. Só a Fundação de Pesca do estado do Rio eu dirigi duas vezes, nos governos Moreira e Marcello; dirigi o IBAMA; e o que pensam que é mais fácil, que foi o Parque, foi o pior momento da minha vida. E, voltando a uma pergunta anterior, eu sempre tive a proteção da polícia federal; aliás, eu não fui assassinado por causa da polícia federal. Eu não vou citar nomes. Esse negócio de palmiteiro continua e o incêndio continua, mas a polícia federal está ativa e vai ter muita gente presa esse ano aí, eu tenho certeza, porque o cara que está dirigindo a polícia federal na região, ele é competente.
JOEL: Eu quero dizer que discordo desse rótulo de vagabundo que te atribuem. Eu acho esse vínculo do parque com a música popular uma coisa muito inteligente. Inclusive tem um texto teu que você habilita o Paulinho da Viola como também um compositor ligado à natureza. Eu, que sou apreciador da obra dele, nunca tinha atentado para isso.
LEO: O Tom não foi o primeiro compositor a fazer música sobre a natureza. Foi o Paulinho com Saudades da Guanabara. O Paulinho é um gentleman, um príncipe, um cara educadíssimo. Eu passei o filme dele aqui no Café Finlândes, quando eu montei aqui um Centro Cultural a céu aberto, logo que eu sai da direção do Parque. O Paulinho, por sinal, diz nesse filme uma frase que serviu muito para mim: “eu não vivo no passado; o passado vive em mim”. Só um cara como o Paulinho pra ensinar o que eu precisava dizer para os jovens do Instituto Chico Mendes, que ficam dizendo que eu vivo no passado. Vejam o futebol! Eu não gosto mais de futebol, onde os dirigentes dos clubes só roubam e não são punidos. Eu não posso gostar mais de futebol! Eu vi Zizinho jogar, vi Didi jogar, vi Gérson, Garrincha, Pelé e vi Zico. Aí se encerra; aí eu não sei mais quem joga futebol. E fui amigo do João Saldanha. O João podia não entender de futebol, mas botava todo mundo para ouvi-lo. E agora só tem nêgo chato. O Galvão Bueno é um chato; ouvir o Galvão Bueno faz você detestar o futebol. Tem dois tipos de nêgo chato: locutor de futebol e economista do mercado financeiro. Vão ser chatos no raio que os partam! Então, o passado vive na gente. Eu vi o Pixinguinha de pijama tocando sax. Inclusive, bebi junto com ele, com nove anos. Vi o Jacó, que não bebia, em Jacarepaguá, embaixo de uma mangueira, tocando o bandolim dele, entendeu? Eu vi o Vinícius, diplomata, chegar e chamar o Pixinguinha de Lord, tá? Eu vi isso tudo. Então, eu precisava de um cara como o Paulinho para responder isso para mim. Eu não vivo no passado, o passado vive em mim; meu tempo é hoje. É claro que eu não vou botar um imbecil de um batuqueiro dentro do Parque. Meu time é Tom Jobim, é Chico Buarque… aliás eu queria ter começado essa entrevista cantando um samba do Chico chamado Injuriado.
GUSTAVO: Eu canto junto!
(cantam) “ Se eu só lhe fizesse o bem/ Talvez fosse um vício a mais/ Você me teria desprezo por fim/ Porém não fui tão imprudente/ E agora não há, francamente/ Motivo pra você me injuriar assim/ Dinheiro não lhe emprestei/ Favores nunca lhe fiz/ Não alimentei  o seu gênio ruim/ Você nada está me devendo/ Por isso meu bem não entendo/ Porque anda agora falando de mim”
GUSTAVO: Dizem que o Chico fez esse samba para o FHC, que não tinha o apôio dele e andou dizendo que ele era um poeta menor.
LEO: Eu não sei se algum político merece um samba do Chico, contra ou a favor… As mulheres todas merecem. Eu tenho um filme do Chico que vou passar aqui no Centro Cultural Móvel de Penedo. Primeiro vou passar o do Paulo Vanzolini, que é “Um Homem de Moral”, em agosto, já falei com o Roberto.
GUSTAVO: Você não acha que desapropriar os proprietários da parte baixa do Parque é uma medida radical – e pontual – quando se poderia ter uma maior flexibilidade com o pessoal que já mora há tantos anos ali e, por outro lado, uma atuação mais efetiva na proteção da natureza nas áreas fora do Parque? Fica igual ao negócio de proibir uma fogueirinha enquanto se deixa queimar a Amazônia.
JOEL: Poderia se fazer uma parceria inteligente com os moradores que já estão lá.
LEO:  Olha, existe a legislação ambiental, e a que existe é essa. Parque Nacional é um lugar pra estudo, pra educação, pra pesquisa e pra turismo. E não pode morar ninguém dentro. Eu sigo a lei como técnico. Quando eu faço um parecer eu vejo a lei; se a lei não presta, mude-se a lei. Agora, os governos vêm se sucedendo com esse problema. Quando o Getúlio criou o Parque em 1937, criou só 12.000 hectares. Com gente morando dentro, com hotel, etc e tal.
GUSTAVO: Essas famílias já moravam lá.
LEO: Alguns já moravam, outros não; tem muito veranista lá dentro. Então, o problema foi se aprofundando.
O que precisa é o corpo jurídico do governo federal fazer um pente fino em cima disso e desapropriar, mesmo porque tudo lá está à venda. Noventa por cento das casas lá tem tabuletas de venda. Porque a maioria dessas casas são de herdeiros. Desde o tempo de Getúlio. A primeira reforma agrária fracassada no país foi no Parque Nacional. Doaram terra pra italiano, pra alemão, pra plantar maçã, uva, café. Esse Parque foi totalmente devastado. Ele quase virou carvão. Mas se recompôs. Se você deixa a floresta quieta, ela ressurge. E nós temos hoje um Parque ímpar, porque nós temos dois ambientes totalmente diferentes; duas fauna e flora totalmente diferentes. Nós temos a Mata Atlântica, essa parte baixa, que vai de 800m de altitude a 1.300m, e temos os campos de altitude, onde ficam as Prateleiras.
GUSTAVO: Tem um projeto de um outro tipo de unidade de conservação na parte baixa, com os moradores.
LEO: Houve essa proposta de dividir o coração do Parque e criar outra unidade de conservação. Você não pode fazer isso! Lá tem 50 mamíferos, lá tem onça parda, lá tem três espécies de macacos, inclusive o Bracteris Aracnotis que é o maior primata da América Latina. E os animais não pedem licença para passar de um lugar para outro, as cobras não pedem licença. E ainda tem outro problema sério, dos insetos. Lá tem mais de cinco mil insetos identificados – e agora foi identificado mais um pelo grande etmologista de 70 anos, professor do Museu Nacional, Miguel Monet, que até me fez uma homenagem: o nome do novo inseto é Babetis Leo. Então, os insetos transmissores dessas doenças brabas aí – dengue, febre amarela, doença de Chagas – tem tudo no Parque… Só não tem problema para nós porque isso está em equilíbrio. Se você não cuidar disso, vai entrar em desequilíbrio. E a única coisa que sobrou da nossa região das Agulhas Negras foi o Parque Nacional. Bem ou mal…, tem um monte de problema…, mas é a nossa grande virtude. É por isso que o pessoal tem que lutar pra preservar essa floresta. E pra preservar essa floresta não pode ninguém morar dentro.
JOEL: Como vai tirar esse pessoal de lá?
LEO: Não precisa brigar, tudo está à venda. A minha política, a minha sugestão sempre foi essa. Nunca me ouviram. Que se compre o que está à venda e que esteja legal. O que não estiver legal, entra-se com um bom corpo jurídico. Não precisa brigar com ninguém.
GUSTAVO: Se mantiver apenas as casas que já estão lá, sem deixar construir mais nada, você não mantém um equilíbrio ecológico?
LEO: Não, porque as propriedades passam de mão pra mão; o sujeito vende pro outro. Você tem uma casa que costuma abrigar três pessoas e daqui a pouco tem 20 indo pra lá. Aí aumenta a descarga orgânica, o problema de água, tudo. Os moradores realmente antigos têm direito a toda a consideração. Mas os novos já compraram de outros sabendo que havia esse problema. Então, não precisa radicalizar. Tem é que o governo ter dinheiro pra isso e começar a comprar o que está à venda. Quando comprar um, todo mundo vai querer vender.
GUSTAVO: E os hotéis?
LEO: Quanto aos hotéis que estão lá dentro, você não precisa brigar com eles; quem comanda é o mercado; é impossível hoje você concorrer com Penedo. Penedo tem desde o hotel de corda (aquele que você encosta a cabeça na corda e dorme, a 10 reais) até o hotel de primeira; tem tudo o que é tipo de cozinha, um café excelente como esse que nós estamos aqui. Então, hoje o sujeito quer ficar em Penedo, ir conhecer o Parque e voltar. E quando a estrada de Mauá ficar pronta o pessoal vai ficar da Dutra a 30 minutos de Mauá. Então, tudo tem que ser resolvido no acordo; não pode é ter guerra; guerra já chega com os palmiteiros e os incendiários.
GUSTAVO: Você que está há tempos nessa área ambiental do governo, acha que a verba para essa desapropriação é prioridade? Ou vai demorar muito?
LEO: Olha, eu sou igual a São Tomé… Eu ouço há 30 anos que tem uma verba para a revitalização do porto da Praça Mauá… Estou ouvindo isso há 30 anos; quando tiver eu vou acreditar…
JOEL: O problema disso aí é o seguinte: coitado de quem vender para o governo…
GUSTAVO: Vai receber precatório…
LEO: Não. Hoje na desapropriação o governo tem que pagar; tem que depositar em 30 dias se não ele perde. Hoje isso é lei. O governo tem dinheiro de compensação ambiental, que ele pode investir nisso. Agora, eu não sei o tempo que vai demorar, eu estou me aposentando, isso é problema de Brasília.
GUSTAVO: Você acredita que Penedo ainda possa salvar a sua bacia hidrográfica. Ter um projeto decente de rede esgoto com tratamento?
LEO: Tudo é possível… Agora, é preciso investimento; é preciso que as pessoas que têm comércio em Penedo não pensem só em vender seus produtos, mas também em pagar imposto, em votar aqui, transferir o seu título para cá. Vocês sabiam que muita gente aqui da Avenida das Mangueiras nem votar aqui vota? Então, não tem compromisso com o local. Se você vir hoje a mutação de proprietários aqui em Penedo, é uma coisa absurda. Compra um negócio, acha que vai ficar rico, não fica rico, vende. Eu morei quatro anos em Penedo e Penedo tem um problema cruel: esgoto e água. Se tiver um bom planejamento, com urbanismo e tudo, vai. Mas a Prefeitura tem que arrecadar; se não arrecadar como é que vai ser?
GUSTAVO: Mas não tem verba direta do governo federal? Ou via CEIVAP? O CEIVAP está publicando agora um edital pra projetos para a bacia do Paraíba do Sul. Será que não é só questão de empenho da nossa prefeitura em correr atrás disso? E aí fica dizendo que não faz porque não arrecada bastante imposto aqui.
LEO: Tem essas verbas, tem até verba de fora. Agora, só não pode é ter a esculhambação que teve aqui, que criaram um Parque e o dinheiro ninguém sabe, ninguém viu. E o dinheiro era do BID. E os prefeitos que vieram depois estão pendurados por causa dessa conta que não fecha; não foi feito nada em Penedo; é uma esculhambação que não pode haver. Se tiver um bom projeto você arruma dinheiro, mas a população de Penedo, real, tem que entrar nesse meio, e o problema é que há uma população flutuante que não paga imposto e ainda mete o pau em Penedo, e eu acho que chega a uns 50% da população.
GUSTAVO: Você que tem força política com o Ypê, e que gosta de Penedo, não intermedia esse projeto?
LEO: Eu não tenho força política nenhuma e nem quero ter. Estou me aposentando e vou voltar ao mar e virar surfista. Tem muita gente boa aí, gente nova, a região está cheia de universidades. É essa nova geração que tem que surgir. Um exemplo: há 10 anos eu dou curso no Parque; atualmente estou dando curso a 10 garotos carentes da rede pública, um curso que chama-se “Ecologia, Turismo e Novas Oportunidades”, que é para inserir o jovem no mercado de trabalho. E os instrutores foram meus alunos no ano passado. Isso eu faço há 10 anos e não digo a ninguém; eu acho o maior lero-lero o sujeito ficar escrevendo sobre isso e não fazer nada. Eu dou muito valor ao meu trabalho de inclusão social através do ensino, e eu acho que o Parque tem uma responsabilidade nisso. Regulação fundiária? Tudo bem, é importante, mas é lei, não tem que discutir muito não; agora, o Parque tem essa obrigação de educar: mostrar a natureza, dar cultura pro pessoal. Porque é assim que se muda as coisas; na porrada, não adianta. Você só vai transformar o país – essa miséria, falta de educação – dando cultura. E a cultura passa pela leitura. Não é vendo Fantástico nem Faustão, nem Huck. A gente tem que criar uma elite melhor, porque a que nós temos é que é a nossa desgraça, é irresponsável. Eu um dia vi um cara subir no capô de um carrão desses que não falam português para arrancar galho de árvore com flor no Parque. Aí o pau quebrou. O cara disse que ia falar com fulano e sicrano; e eu “ você pode falar com a puta que o pariu; você vai sair do Parque agora!”. Todos os danos ambientais no Parque são causados da classe média para cima. O povo chega lá e se comporta. Chama um cara desse rico aí pra doar um pouco de tempo e dar aula… Ele ri na tua cara, te chama de otário… É essa mentalidade que a gente tem que mudar.
GUSTAVO: Você acha que poderia haver uma integração maior das escolas da região com o Parque?
LEO: Já existe, é que pouca gente sabe porque o técnico em geral não é candidato a nada. São 10 mil alunos e professores da região. Itatiaia é que nunca aproveitou isso. Resende, Barra do Piraí, Barra Mansa, Itamonte é que aproveitaram. Isso é um trabalho que vai até virar uma tese de doutorado na UERJ. Então, esse trabalho de atendimento já existe; eu só estou fazendo mais específico, treinando professores, como já treinei os da João Maia. Agora, o grande problema ambiental do país, no meu modo de ver, são as pessoas que não têm coragem para resolver os problemas e ficam jogando para cima dos outros, das autoridades.
JOEL: Considerando que a terceira guerra será por causa de água, como todos dizem, o Parque, com o rio Campo Belo e mais 11 afluentes, todos com água da melhor qualidade, é uma riqueza incrível, é uma questão até de segurança nacional, é uma das maiores riquezas do estado do Rio. Então, além da flora, da fauna, das obras do Guignard, o Parque tem essa riqueza internacional.
LEO: Nascem 12 rios no Parque. O Campo Belo a 2.400m de altitude. Os rios do Parque dão água aqui pra Penedo, pra Serrinha e pra Mauá; o Campo Belo abastece toda a cidade de Itatiaia. Itatiaia não cobra água dos moradores, iludiu os moradores… Mas o governo federal cobra água da prefeitura; está cobrando quase seis mil reais por mês. E vai cobrar a partir do ano que vem mais de 100 mil por mês, e tem que cobrar mesmo porque a água não é infinita, e, como você disse, a próxima guerra mundial é sobre a água; o pessoal vai morrer de sede; a água daqui há 20 anos vai ser muito mais importante do que o petróleo. É ilegal, é inconstitucional não cobrar a água.
GUSTAVO: Você acha que há necessidade de terceirizar, como em Resende?
LEO: Esse negócio de terceirizar ou o poder público gerir, isso não quer dizer nada. Precisa é ter uma boa gestão, séria e transparente, seja lá de quem for, só isso. Porque a água sai pura do Parque mas chega em Itatiaia com muito problema. Os problemas de miséria em Itatiaia são muito violentos. No começo do governo do Luis Carlos, com o Dr Márcio à frente, nós seguramos a questão da dengue – e no Parque tem o aedes egipyt, transmissor da doença, você já imaginou?  Tem também vários problemas gastroentestinais causados pela água que não é tratada. Então, vai ter que cobrar.
GUSTAVO: Você gostaria de dizer mais alguma coisa?
LEO: Olha, tudo na vida começa com bom humor. Se o cara não tiver bom humor, ele pode ser o bam-bam-bam que ele vai entrar pelo cano. O bom humor é o principal da vida. E eu gostaria também que vocês publicassem o poema do Vinícius de Moraes, o Soneto da Fidelidade, que diz que o amor tem que ser eterno enquanto dure. Nêgo tem que entender isso até para não ficar apegado a um cargo eternamente.

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3 comentários adicionados em “Leo Nascimento: “A gente precisa de uma elite menos medíocre””

  1. Henrique Castro Disse:

    Sou grato ao Ponte Velha por trazer uma interessante entrevista para nossa reflexão. Muitos pontos da conversa nos lembram pontos-chave para que haja alguma mudança que seja em Penedo. O engajamento das novas gerações é primordial. Já vimos que com as velhas não se pode contar muito, pois há anos nada do que é preciso fazer foi feito – vide o plano diretor de Penedo, realizado num estudo do IBAM para a prefeitura de Itatiaia, que aponta várias soluções que são sempre levantadas, mas nunca implementadas. Falta mesmo melhorar a qualidade da política local. Por onde começar? Educação, a única forma eficaz que eu conheço.

  2. mariana pontes gerdau Disse:

    Mediocridade realmente existe. Principalmente em um ser, que se proclama tão culto, e tão “promoter” da cultura, mas que foi o mentor e grande laborador da desmontagem do Museu Regional da Fauna e da Flora (um verdadeiro crime contra todos de nossa região), que havia no Parque Nacional do Itatiaia, como é o caso deste Sr. Leo Nascimento. E não me venha agora dar uma de bom moço, porque como já dizia os nossos antepassados, como este aí, o inferno está cheio de bons moços e bem intencionados. Esta pergunta os srs jornalistas bem que podiam fazer. Como alguém que se diz tão propagador da cultura teve a coragem de fazer e acontecer para que o Museu fosse ridiculamente transformado naquela coisa? Bonitinho, como alguns incautos teimam em dizer (pois não conheciam tudo que havia lá antes)…mas sem conteúdo, sem a biblioteca, sem o herbário, sem os dioramas corretos (imagina, agora a sussuarana pousa ao lado de toda a cadeia alimentar que ela comeria)…Pessoas assim, como este senhor deveriam sim ser banidas da nossa região….e jamais deveriam ter apoio de quem quer que fosse. Mas não há de ser nada. Que Deus lhe de em triplo tudo que o senhor vem fazendo por nós!

  3. leo nascimento Disse:

    ESTOU HÁ 10ANOS NO PNI E NUNCA VI ESTA SENHORA .
    PQ NÃO UM DEBATE SOBRE O ASSUNTO.
    EM TEMPO -EU MANDO O MAPA DE LOCALIZAÇÃO.
    ATS. LÉO

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