O fim do mundo. Desesperadamente
Publicado por Marcos Cotrim

1) A bola ficou quadrada. Os passes se faziam transportando-a nas mãos, a fim de nunca errar ou acertar de modo previsível, para facilitar a cobertura jornalística, a cotação do mercado e a invenção de jogadores, até que criaram um sistema de trilhos, e ela circulava sempre pelo mesmo lugar. Disse “circulava”, mas devia dizer trafegava. Os árbitros entraram numa escola cada vez mais precisa, e o ideal de exatidão os transformou em magistrados. Cada jogo gerava um processo na corte arbitral, pois os milhões envolvidos justificavam extremos cuidados. O fair-play passou a ganhar jogo e acabaram os jogadores bons, sobrando só os bonzinhos, com o selo-FIFA, de preferência depilados. (Elegia para uma bola murcha; de um viúvo da Seleção de 1982)
2) “Lamento ver que há um tipo de suposição universal na maioria dos jornais de que o cavalheiro que deu dinheiro às crianças e homens nas ruas fez algo inteiramente indefensável e absurdo. Quando interpretou a caridade como a obrigação de distribuir dinheiro pelas ruas, ele fez algo pelo que eu, por exemplo, esperava há muito tempo. Não vou tão longe a ponto de afirmar que ele estava certo; mas certamente penso que estava muito mais certo que todos os filantropos e organizadores de caridade que o desaprovam. Está tudo muito bem em dizer que os economistas alertam que a caridade casual faz mal. Os economistas são muito capazes de afirmar que comer e beber faz mal – e, de fato, pensando bem, comer e beber faz certamente mal. Fala-se em jogar dinheiro no mar. Fala-se em atirar riquezas num poço sem fundo. Fala-se em derramar um bom vinho no esgoto. Mas pelo menos, em todos esses casos de jogar algo no abismo, a coisa, uma vez no abismo, não pode fazer mal. O dinheiro não pode subornar o mar; nem o vinho pode embebedar a tubulação. Fazemos, contudo, algo mais obscuro e mais imprudente quando atiramos vinho ou comida num abismo mais tenebroso que é dentro de nós mesmos…” (Chesterton, 1906)
3) A pobreza é pública. E é um bem. Aliás, um bem bastante distribuído, pois todos são pobres. Todos recebem para viver, respirar, pensar, embora pensem que respiram e vivem graças ao Congresso Nacional. Que pouco pensa. Ou há os mais inteligentes, que pensam que pensam graças à pauta da ONU ou do WWF. A privatização da pobreza vale tanto quanto sua estatização: nada. Assim pensavam nossos antepassados, quando inventaram a personagem do Juiz de Paz para zelar das fronteiras entre nossas minguadas posses, resolvendo rusgas de vizinhos, dotando nossa orfandade constitutiva e dando cobro à maior parte das safadezas que assolam o mundo. Mas aí resolveram organizar demais as coisas, os pobres viraram um empreendimento e as fichas ficaram sujas.
4) Dois reis insensatos, mas muito cumpridores dos deveres e cheios de boa vontade tinham um amigo muito simples, chamado Não-Forma, que os tratava muito bem.
Resolvidos a dar-lhe retribuição, planejaram uma surpresa. Como os homens têm sete aberturas para ver, ouvir, comer etc. e o Não-Forma não as possuía, de presente, fizeram nele aberturas durante sete dias. Ao fazer a última, seu amigo estava morto.
Moral: “Organizar é destruir” (A Via de Chuang-Tzu, 1977; adaptado)
Marcos Cotrim
Jornal Ponte Velha



