Moças
Publicado por Nuno Romero

(inspirado pelas leituras de J. Strauklys)
Embora tenha se surpreendido em ver-lhe novamente, reconheceu-se de imediato. A última empreitada – maravilhosa e revigorante – o fizera esquecer-se do que fora até que a iniciasse. Desde então o amor havia sido tão arrebatador que aquilo não podia deixar de afetar-lhe a memória. Nada que a experiência empírica não fosse capaz de resgatar. A boemia é parte constituinte de si e ele já não se permite qualquer dúvida sobre isso. Sabe que ainda vai afastar-se e reaproximar-se muitas vezes ao longo de sua delicada existência mas, agora, sente-se em casa na sua condição descompromissada. E a maré tem sido gentil.
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Vou me encontrar com Natália. Não fosse por um detalhe, Natália seria Juliana. Vou encontrar com Natália porque ela me intrigou. Porque não conheço Natália. Conheci Juliana, mas Juliana existe muito pouco. Por outro lado, tudo o que tenho de Natália é Juliana. Mulher interessante.
Na ocasião em que nos conhecemos eu me sentia especialmente disposto ao contato social, e não fosse pela impossibilidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo, eu não teria deixado de comparecer a duas das cinco festividades para as quais eu fora convidado. A hora já era avançada, tal como o teor de álcool (o qual eu tratava de manter precisamente) quando a vi adentrar o salão. Ela estava fantasiada. Pouco depois eu descobriria que não apenas vestida com uma fantasia, mas vivendo uma personagem. Ela, do meio do salão, manteve o olhar sobre mim e eu correspondi. Num par de instantes estava eu, com um bando fantasiado, rumando de volta a Santa Teresa.
Nesta noite as coisas não correram como eu gostaria. Havia certa avidez pelo calor de uma mulher e não o obtive. No entanto, sentia-me feliz com meu próprio proceder, com a sensação de liberdade que me trouxe esse movimento estúpido de deslocar- se de uma bebedeira à outra sem muito pensar na perspectiva do sono maltratado e do dia que o segue. Natália, uma vez que profundamente Juliana, se encaixa perfeitamente neste delírio. Natália me intrigou, mas delírios não devem durar muito.
Não durou. Natália, uma vez conhecida, se assemelhava por demais a Elisa. Eu havia amado Elisa loucamente mas, ao fim de nosso romance, ela consumira toda a minha paciência para com determinados temas. Natália me despertava Elisa na memória, mas soava como uma falsificação de Elisa. E se da original eu já havia me desvencilhado, não me apegaria de modo algum a Natália. Natália não é má. Provavelmente eu é que sou.
Nuno Romero
Jornal Ponte Velha



