Lições do Verde – 2
Publicado por Marcos Cotrim

1- Dos primeiros ensinamentos que o pintor de paisagens recebe, o de como usar o verde, estilhaçado em nuances, reflexos e reverberações, é de grande sentido existencial. Talvez a arte “inicie” mesmo o homem em sua humanidade, e – como queria o Platão do Banquete e do Fedro –, pode ser uma entrada no país da liberdade espiritual, perguntando pelas identidades e respondendo com as diferenças inevitáveis; perguntando pelas regras e respondendo com as transgressões necessárias. Há uma retórica no verde, capaz de “docere, delectare, movere.”
Como o logos da pintura, o dos livros marca fronteiras entre a cidade e as serras, o apolíneo e o dionisíaco, o caminho e a derrota. As convergências entre florestas e livros não se resumem ao papel da celulose no progresso da civilização ou na divulgação da barbárie. As lições do verde alcançam a razão de se viver em comunidade e de se cultivar o espaço por excelência da política, a proximidade. E o que define o espaço da proximidade é nossa capacidade de ler. Habitamos o que deciframos, o que nos é familiar. Disso cuidamos. Não por acaso,comunicação lembra comunhão.
A noção de proximidade, tão cara à ética não-igualitária de qualquer grande tradição religiosa, mas especialmente sua forma madura como caridade dentro do ambiente judaico-cristão resistente nos países ibéricos, legou-nos o valor da casa como intimidade e partilha, a ser alargado para a vizinhança, a cidade, a pátria. Ocorre que tal espaço tem-se tornado tão instituído, tão organizado, que sua implementação compulsória deve fazer parte do próximo capítulo da revolução. Nasceremos solidários, mas irremediavelmente solitários.
2- A questão é motivada pelo livro de François Julien, O diálogo entre as culturas: do universal ao multiculturalismo (Zahar, 2009, tradução de nosso André Praça Telles). O autor mostra como o processo de globalização econômica nos faz apressadamente confundir o universal, o comum e o uniforme e espicaça a sensação de insegurança, levando à afirmação enfática do tradicional e do idiossincrático no plano da cultura, como forma de sobrevivência social. Dispensável recordar, a propósito, as dificuldades “culturais” do diálogo norte/sul sobre o clima ou a dívida externa dos países pobres, a formação de enclaves ideológicos ou redutos de fanatismo religioso, a idéia do “choque de civilizações” enfim, como contraponto à universalização das teses liberais, com sua suspeita filantropia.
É de Murilo Mendes, a observação de que “precisamos ser contemporâneos, e não apenas sobreviventes, de nós mesmos”. A contemporaneidade nos ameaça com a juventude e a liberdade autênticas, daí a dificuldade em aceitar a ultrapassagem de nós mesmos em direção ao outro, que condiciona a política como zelo pelo bem comum, tornando-o legível pela arte.
Há algo de totalitário no culto globalizado ao vulgar e utilitário, no divórcio entre arte e política. A imposição dos “direitos humanos”, obrigando todos a serem livres do mesmo jeitinho, está mais para reflorestamento de eucalipto do que para biodiversidade. A afirmação dos “direitos das minorias” cassa na prática o direito de viver segundo valores mais tradicionais ao criminalizar posições conservadoras. A uniformização dos currículos, das linguagens, da crítica, que planeja fazer de nós naturalmemente cidadãos sob o disfarce de democracia, nos adverte de que não reencontramos o rumo de uma estética própria, uma autenticidade social como epifania do bem comum, capaz de restaurar o espaço da política.
“Para os pais de nossos pais, uma casa, uma fonte, uma torre desconhecida, até mesmo seu próprio vestido, seu manto, ainda eram infinitamente mais, infinitamente mais familiares; quase cada coisa um vaso, no qual já encontravam o humano e acumulavam ainda mais do humano. Agora chegam da América coisas vazias e indiferentes, aparências de coisas, simulacros de vida… Uma casa na acepção norte-americana, uma maçã norte-americana nada têm em comum com a casa, a fruta e o cacho em que haviam penetrado a esperança e a meditação dos nossos antepassados… As coisas animadas, vividas, admitidas em nossa confiança, vão declinando e já não podem ser substituídas. Talvez sejamos nós os últimos que ainda tenhamos conhecido tais coisas…”
(Rainer Maria Rilke, carta a Witold von Hulewicz, 1912.)
Marcos Cotrim
Jornal Ponte Velha



