Roberto Granja: “A grande obra de arte é a vida de cada um”
Publicado por Entrevistas

Apesar de ser uma pessoa que consome pouco — se depender de mim, o comércio está no sal — eu adquiri dois quadros do Roberto Granja no começo dos anos 80; as únicas obras de arte que comprei na vida. Recortei também um desenho que ele fez em meio a um mapa de Mauá e emoldurei. Os trabalhos misturavam o mundo caipira com elementos marginais das metrópoles, e havia neles uma reflexão sobre a questão. Aquilo não era supérfluo, era essencial; representava o sentimento que me fazia — e a tantos da minha geração — deixar a grande cidade em busca do campo. E só fui conhecer o Granja muito tempo depois. Há 30 anos ele vive da arte que faz em seu atelier do Vale das Cruzes, em Visconde de Mauá. Tem também obras abstratas belíssimas, e no ano passado trabalhou quase que somente em grandes paínes de madeira vazados com formão. Porque, além de pintor, o Granja é escultor, cenógrafo (três filmes de Júlio Bressane e algumas peças de teatro), cozinheiro, eletricista, músico (toca contrabaixo acústico e tem um duo que se apresenta na região) e pensador, como se vê nessa entrevista que concedeu ao Ponte Velha. (G.P)
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GRANJA: Fui um garotão de praia, em Ipanema. Meu pai era militar. Quando eu tinha nove anos eu abri a porta para o Exército prender meu pai, no 31 de março de 64. Meu pai foi contra o golpe. Foi para Realengo para combater as tropas do Mourão Filho, que vinham de Minas. Os caras acima dele deram para trás, fizeram um acordo; ele voltou pra casa, fez a malinha dele e já foi preso naquele dia. Isso me marcou muito. Estou falando essas coisas porque tem a ver com quem sou eu, com eu ser pintor. Quando eu tinha 12, 13 anos, já em 68, 69, eu vivi uma vida muito paralela, porque eu era do Colégio Militar e ao mesmo tempo eu era o único contato da família com o meu irmão que era da ALN (Aliança Libertadora Nacional) e estava na rua, sendo procurado; e aí mataram dois amigos dele que iam lá em casa todo dia, meninos de 18 anos, bons pra caralho… só porque pixavam aquelas coisas, “abaixo da ditadura”… Meu irmão se auto-exilou e depois voltou e foi morar naquela zona do mangue, que hoje é aVila Mimosa; alugou uma casinha no meio das putas. Eu ia ali. Eu era do Colégio Militar e era limpeza de levar contatos. E eu não era politizado, era humanista, e o cara era o meu irmão. Mas eu não podia falar com ninguém, meus colegas não sabiam de nada, a gente só ouvia a televisão e os jornais falarem “comunistas, etc”. Depois meu irmão se exilou novamente, na Bélgica. Isso tudo me deu muita tristeza; me deu um lance de eu não me adaptar muito com a sociedade. Eu na época até escrevi um negócio assim: “é impossível deixar de te ver minha querida sociedade, mas nos veremos menos”.
GUSTAVO: E na sequência você veio pra Mauá.
GRANJA: Pois é. Aí já foi em 78, 79. Eu trabalhava num teatro, falava que queria sair do Rio, e um cara me disse assim: “você tem cara de Mauá, tem que ir morar lá”. E eu estou com o meu atelier de artes plásticas aqui desde essa época, há 31anos. E isso sempre foi o sonho da minha vida. Desde garoto, quando eu via os ateliers dos artistas eu pensava: “puxa, que independência, não tem que jogar com ninguém, não tem que por roupinha…”
GUSTAVO: Você já era pintor quando veio pra Mauá? Você estudou artes plásticas?
GRANJA: Eu estava na faculdade de Educação Física mas não ia. Ia para a casa de um amigo, que me emprestava o espaço pra eu pintar. Quando eu disse aos meus pais que fazia um ano que eu não ia à aula eles queriam me matar. Depois estudei no Parque Lage. Nesse tempo você aprendia todas as técnicas: escultura, pintura, modelo vivo, gravura em metal, litografia. Graças a Deus eu tive uma boa base de várias técnicas, principalmente de modelo vivo. A primeira exposição que eu fiz foi em 75; em 76 já estava no Salão Nacional.
GUSTAVO: Pelo fato do seu pai ser militar foi mais difícil ele aceitar um filho artista?
GRANJA: Enquanto o filho não faz sucesso, nenhum pai quer que ele seja artista. Aliás, ninguém quer, ninguém respeita, diz que é vagabundo. Ficavam falando que eu ia ser mendigo. Nessa época, como eu sou um cara mais revoltado, eu fiz uma série maravilhosa que se chama “Olhar Vagabundo”, eu assumi o vagabundo. E, por outro lado, eu sempre trabalhei muito, para mim era muito estranho o “vagabundo”. Embora eu valorize muito o ócio, porque a arte é um sacerdócio e sacerdócio inclui o ócio. Às vezes me perguntam se demorou muito pra fazer determinado quadro. Eu digo assim: pra fazer, não, mas pra olhar demorou. Olhar as coisas antes de fazer o quadro, e olhar o quadro durante a feitura. Quando eu fiz a minha primeira casa aqui em Mauá — já fiz quatro, vendo elas e vou me mudando — eu tinha trocado o terreno por cinco quadros. Era um terreno no barranco e eu fiz uma escada. Fazia um degrau e ia para o outro lado da estrada ficar olhando. Aí, o seu Edi, um mineirinho que morava perto e estava me olhando do mato, veio me dizer assim: “Ô Granja, você conhece, heim.. porque o cara que faz um degrau e não vai olhar de longe, não vai ficar bonito…, não vai dar certo…”. Eu aprendi muito de engenharia, de física, de matemática, fazendo as minhas casas. Tem alguma coisa mais importante do que saber fazer uma casa? Todo ser humano, em qualquer lugar do mundo, faz, de gelo, de barro, e a gente, nas cidades, não sabe mais fazer… João de Barro faz…
GUSTAVO: Voltando à questão dos pais, eles se assustam de ver os filhos quebrarem o padrão urbano; têm medo de que eles não consigam ganhar a própria vida. Porque é um corte radical. Como foi esse rompimento pra você?
GRANJA: Eu percebi que a minha única forma de independência, de poder me dedicar totalmente à pintura, era morar numa rocinha, onde eu não gasto nada; não tenho mesmo vaidade de roupa, de porra nenhuma. Pensava assim: vou botar uma plaquinha: vendeu, vendeu; não vendeu, fico quietinho ali… E nessas já se passsaram 31 anos. Então, foi uma opção acertada. Anos depois, eu virei até o exemplo da família na visão da minha avó, porque eu batalhei, fiz as minhas casinhas com a minha mão, enquanto outros, com uma opção aparentemente melhor, na cabeça deles, estão muito na ilusão. Então, eu saí fora radical, mas não brigando com a família. E eu digo o seguinte ao cara jovem: se puder escolher, que não seja artista, mas se tem uma febre que ele quer dizer aquilo o dia inteiro, então não tem jeito, ele é um artista e ninguém vai poder impedir. Eu tinha essa febre, modéstia à parte, desde garoto, tenho até hoje; tenho o maior cuidado com a palavra arte, tenho até ela aqui, tatuada no braço, porque é uma relação de muito amor, você não pode vulgarizar que ela te abandona.
GUSTAVO: E esse mercado de arte, dos marchands, das galerias, onde alguns conseguem ganhar muito dinheiro? Qual foi sua experiência com isso?
GRANJA: Olha, o que eu tenho hoje são uns quadros numa galeria em Ipanema. É muito mais caro o preço lá, mas não vende. Então, eu vivo é dos quadros que eu vendo na minha casa. Trabalhei com muitas galerias, já fiz mais de sessenta exposições. Só vão lá no vernissage. Mesmo assim vão os teus amigos para matar as saudades; o povo simples não entra porque fica intimidado, e também não está com dinheiro. E quanto custa você levar 30 quadros para o Rio? E chega na hora a prefeitura não banca o coquetel… Eu já vendi três cavalos para fazer uma esposição no Hotel Meridien, eu e o Fernando Fleury. Depois da exposição ficamos eu e ele no bar, tomando um chopp e falando: “e agora, como é que vai ser?” Aí lembrei dos meus cavalos: “vou vender os cavalos hoje, maluco!”… Porque teve um coquetel para 200 pessoas e eu não vendi nenhum quadro… As pessoas foram lá, beberam pra caramba, depois já era… Eu já levei tantas furadas… foram as melhores coisas da minha vida; o sucesso te ensina muito pouco, como diz o Abujanra. As galerias eu parei porque é o seguinte: você deixa em consignação, o cara vende e não te avisa. A dona da editora Record, por exemplo, me mostrou um quadro meu que tinha comprado à vista, e o cara da galeria estava me pagando um ano depois, em cinco vezes… Teve uma vez que uma mulher de uma galeria me perguntou com essas palavras: “ você é da panelinha?” Então, eu conheço pouco o mercado de arte, porque eu saí do Rio com 23 anos. Eu tenho o meu mercado. Tem gente que já me comprou 19 quadros grandes, que me indica para os amigos; graças a Deus tem gente que gosta do meu trabalho, que acompanha a minha história, o artista é muito ajudado por amigos. E eu vendo num preço realista. Tem muito artista que diz que o trabalho vale um milhão de dólares, mas nunca vendeu nenhum… Eu vendi tudo. Eu já vendi uns dois mil quadros, estou há 30 anos vendendo quadros, eu vivo disso. E não guardo nenhum. Alguém me diz: “guarda o que você gosta mais”. Eu gosto de todos… E vou te falar uma coisa: nem famoso eu quero ficar, estou te falando de coração aberto. Eu saí de uma cidade grande, onde você conhece todo tipo de gente influente e tal, vim para cá, vivendo muito tempo sem luz, até sem banheiro — eu dizia ao turista, pega a enxada e vai em qualquer lugar aí no mato — e aqui foi o tempo mais feliz da minha vida. Se eu não acredito muito nessa forma de sociedade, que no fundo o valor não é por mérito, mas por quem conhece quem, quem é amigo do jornalista tal, etc, qual o mérito de ser famoso? Tem muita crítica paga, bicho. Teve uma revista de arte aqui em casa, eu fiquei todo feliz, e no fim a mulher perguntou se eu queria uma página, duas ou meia. É mole? Era pago. O Andy Warhol dizia que todo mundo podia ser famoso por 10 minutos; aliás, ele mesmo disse que o seu segredo foi sacar a mediocridade do nosso tempo. Nêgo quer o mundo da marca. É o mundo da generalidade, de dourar uma pílula. Eu já quero o mundo do ofício, o mundo do dia a dia. Eu acho que ninguém devia ser famoso nem 10 minutos. Se tem seis bilhões de pessoas, cada um tem o seu sonho.
GUSTAVO: O artista é visto como um ser especial.
GRANJA: Isso é uma mentira. Eu me inspiro muito mais no artista que tem o seu ofício, que nem o sapateiro antigo, como era o artista antigamente. Vamos falar a verdade: eram os caras que sabiam fazer… Uma escultura de mármore dos romanos… E aí eu te digo uma coisa: hoje a gente tem o problema de querer destruir o velho sem saber fazer o velho, sem conhecer o velho; é falta de humildade; precisa conhecer para poder levar adiante; mas não, o sujeito quer logo pendurar um fusca no teto e pronto, é mais fácil… Não estou dizendo com isso que não gosto de arte conceitual, tem coisa muito boa; estou dizendo que o jovem quer logo fazer uma coisa genial, sem interesse pelo estudo, pela história. Veja uma exemplo: o que mais me encantou de trabalhar na madeira agora foi o formão, que é uma ferramenta igual era há dois mil anos. Porque hoje em dia tem muitos truques, muitas ajudas. E existem algumas técnicas que hoje ninguém mais sabe… Tirar uma mulher que está lá dentro do tronco da madeira. Eu valorizo esse dom, que é também trabalho, estudo. Eu até me surpreendo quando vem alguém aqui e se espanta de me ver trabalhar direto. Por que não? É o ofício. E isso não invalida o meu abstrato. Essa natureza me ensinou que nós somos tudo: escultor, marceneiro, eletricista, cozinheiro, pintor, experimentador… Vou dizer aqui uma frase que é uma besteira, não é nem minha, mas vou dizer: cansei de ser moderno, agora quero ser eterno.
GUSTAVO: É do Drumond. Tem um outro verso legal do Walt Whitman: “estou me contradizendo?/ Não tem problema/ Sou imenso, contenho multidões”.
GRANJA: Claro, graças a Deus, porque tudo tem um valor enorme. Olha só: aqui em Mauá é um lugar que tem muito esoterismo, e às vezes eu encontro pessoas dizendo que querem se iluminar. E eu digo a elas: eu não quero me iluminar. Porque se existe Deus e me deu a tristeza, a alegria, a angústia, eu não abro mão de nada que Deus me deu. Eu não acredito nos deuses, acredito nos homens. E tem uma insatisfação nos homens que as pessoas veem como problema e eu vejo como solução. É essa insatisfação que no fundo te move, e faz a gente criar, e faz a gente mudar, porque hoje eu estou pensando assim e amanhã posso rever alguma coisa, pensar outras diferente.
GUSTAVO: É difícil lidar com a liberdade?
GRANJA: É, tem que ter disciplina, organizar o trabalho. Como eu já disse, não pode é ficar na ilusão de fazer um quadro de quinhentos mil reais. Isso aí é um armação para lavar um dinheiro de um Maluf da vida, de um Marcos Valério da vida, isso aí é outra coisa… A real é o seguinte: para você vender um quadro todo mês para sobreviver é um inferno. Então, vai querer ser artista? Tem que se preparar porque você vai viver na dureza, como todo artista, desde os impressionistas, olha a história dos caras… Como é que morreu o Modigliani? Morreu de fome. Eu fui na Alemanha e chorei ao ver a hipocrisia daquela fila para ver os 30 quadros do Van Gogh. Todo mundo muito bem vestido e fazendo “Oh!”. Porra, cara, ele não vendeu nenhum… Ele se suicidou socialmente; podemos exagerar e dizer que a sociedade matou ele. Eu nunca deixei a sociedade me matar. Os pais no teu ouvido: “ A vida! O futuro!”. Ora, quem sabe de alguma coisa? Quando eu vim pra Mauá eu pensei assim: se eu estiver muito duro vou no restaurante e faço a cara do dono em troca de um prato de comida.Veja bem: eu não estou me lamentando, eu estou bem demais na vida, tenho um atelier maravilhoso, não me falta nada; eu só quero alertar aos jovens sobre o que é ser artista. Não é para viver comprando um carro novo todo ano. Você paga um preço na sociedade para ter um carro novo todo ano. A independência, que é vital para o artista, não pode pagar esse preço.
GUSTAVO: O Guignard, que morou em Itatiaia, dizia que quando precisava muito de dinheiro pintava uns Santo Antônios, o santo casamenteiro, porque sempre tinha uma solteirona pra comprar.
GRANJA: Mas o pior é que eu não gosto de fazer isso. Tem gente que quer encomendar um quadro “tipo aquele ali”. Mas eu não posso fazer porque eu não sou um artesão, eu não posso repetir, eu sou um criador. A madame que quer um quadro que combine com o sofá dela… Eu não quero saber do sofá dela! Ou vem me dizer que a côr que “está se usando” agora é tal ou qual — tem que inventar um nome novo, “branco perolado”… (tem côr até com nome em inglês agora, que é pra acabar de uma vez com a nossa língua…). E se ela usar o que está sendo aceito pelo glamour daquele momento ela é aceita por outros idiotas… Teve um tempo, nos anos 70, que uma determinada pessoa não me aceitava porque eu usava sandália havaiana, dizia que era coisa de lavador de carro; agora, que a Gisele Bundchen ganhou cinco milhões pra usar, essa pessoa deve estar usando também… Mas voltando à arte, as pessoas não têm noção de que cada quadro é uma peça única. É melhor ser influenciado pela vida, pelo outro, pelo cara que quebra pedra na estrada, que limpa a estrada, que é o seu vizinho, do que ficar copiando o seu umbigo a vida inteira, com truques; eu tenho horror a certos truques. Mas o mercado de arte gosta do truque, até para poder classificar o cara: aquele é o pintor das mulatas… Comigo é difícil, porque uma hora estou fazendo figurativo preto e branco, logo em seguida estou pintando abstrato colorido, ao mesmo tempo sou marceneiro, cozinheiro…
GUSTAVO: A rede de lojas da nossa região turística é boa para vender arte?
GRANJA: Eu vou te dar um exemplo. Eu acho que a igreja criou aqueles templos imensos para dar uma atmosfera, para o cara poder ouvir o padre falar de Deus. Eu acho que na rua não seria a mesma coisa. A arte também precisa de um templo. O que está ali não é igual ao que está num shopping. E não está ali só para vender, está ali para se comunicar com você.
GUSTAVO: O universo da roça, os caipiras, são um tema forte seu no trabalho figurativo. E agora de novo nos seus entalhes na madeira, sempre misturados com alguns elementos de circo, de marginalidade urbana. Fale um pouco desse seu mundo.
GRANJA: Eu me liguei no caipire-se em vez de no punk-se. Quando eu estudei, o exemplo da pintura sempre era o inglês, o francês, das “Belas Artes”, que são maravilhosos, mas eu comecei a perceber os artistas “caipiras”. Posso citar alguns aqui: Ascânio M.M.M, na madeira; GTO, na madeira; Antônio Potero, na pintura… Uns caras assim que têm a qualidade da arte africana, que não é aquela coisa educada mas é mais forte do que o educado. O Picasso inaugurou a arte moderna quando ele viu a máscara africana. Finalmente alguém pode fazer um quadro feio. Porque também, que porra é essa que tudo tem que ser bonito? Se eu estou feio vou expressar coisa feia. Quando eu estou fazendo arte não estou pensando se vai combinar com o sofá da casa de alguém. E me interessa muito o lance do caipire-se. Porque a gente busca tanta “cultura”, entre aspas, tanta justificativa para uma arte… Não sou só eu que digo isso, o Ferreira Gullar é muito ligado nessa questão de que hoje em dia mais vale um blá, blá, blá do que o próprio trabalho. E na verdade não interessa o blá, blá, blá; tem muito artista popular simples que é sofisticadíssimo; a simplicidade é o último estágio da sofisticação; aquela coisa é que interessa, o resto é enfeite. Eu não sou um artista popular, porque vim de uma cidade grande, fiz cursos, estudei, tenho vários livros, acompanho a arte alemã, a arte francesa, acompanho inclusive gente que não está muito na mídia, porque eu gosto, os sul-americanos todos. Um dos meus ídolos é o Joaquim Torres Garcia, que a obra toda dele, inclusive, foi queimada naquele incêndio no MAM. É um colombiano que a gente, como sociedade, não conhece. A sociedade parece que parou no Manet, no Monet, no Cezzane, no impressionismo, que foi o mais moderno que viu. Isso aí tem mais de 100 anos… Então, não conhecemos os nossos vizinhos, como o Xul Solar, como o Jacques Bedel, com as ruínas de prata dos nossos povos desaparecidos. Então, me interessa mexer nessas pedras para ver o que tem debaixo, para entender quem sou eu, a minha história; pra estar consciente do que é a invasão cultural, porque a primeira coisa que o imperialismo ataca pra dominar é a tua cultura, dizendo que a tua arte é menor, que os teus escritores são piores, impondo o padrão deles. E em termos culturais nós estamos num momento difícil, não estamos nos identificando como um povo; uma parte do Brasil não gosta da outra, quem é rico não gosta do mais pobre. Tudo o que um dominante quer é isso: acabar com a cultura que nos une como um povo, falar que ela é brega, é jeca, é caipira. Então, viva o caipira, porque somos nós.
GUSTAVO: Como é a diferença entre trabalhar no figurativo e no abstrato?
GRANJA: Teve um certo momento em que eu não queria mais “dizer alguma coisa” com a pintura. O alfabeto dela é azul, amarelo, vermelho, é composição, textura, não tem como botar em palavras. E em 1984 eu fui virando abstrato. Na minha opinião o abstrato é mais difícil, porque você não sabe onde você vai. O figurativo tem uma direção, tem uma história a ser contada, que também leva a uma direção na plástica. No abstrato, às vezes você faz tudo e depois apaga tudo; e depois que apaga tudo, aquele resto que ficou, aquele pinguinho, é que é o barato. Às vezes a pessoa pergunta assim: o que você quis dizer com isso? Eu não quis dizer nada, eu não sou escritor. A questão é outra, é plástica; é a expressão de uma beleza, ou de uma feiura, ou de uma melancolia. Você exercita o mais profundo. Eu sou um experimentador, eu quero vomitar coisas. O homem contemporâneo parou de experimentar e de vomitar coisas. Mas nunca deixei de fazer figura, porque eu amo a figura, como você está vendo agora, na madeira; fiquei um ano só na figura depois de muitos anos no abstrato.
GUSTAVO: Como é sua vida em Mauá? Como você vê as mudanças nesses 30 anos?
GRANJA: Olha, eu não sou um cara saudosista. Mauá mudou? Tudo muda. O mundo vai acabar? Vai demorar ainda. Quanto à vida social eu fico muito em casa. Eu pinto sozinho, toco sozinho. Eu até brinco às vezes quando vou namorar alguém: “Ó, é a maior furada pra você; eu sou o pior cara pra ser companheiro…”. Porque a mulher quer passear, quer jantar fora; você não tem dinheiro pra jantar fora e não gosta de passear… (dá gargalhadas).
GUSTAVO: E quanto ao asfaltamento da estrada, que está essa polêmica toda?
GRANJA: Eu não me envolvo nisso pelo seguinte: eu já vi nego ficar inimigo há mais de 15 anos por causa de asfalto ou não asfalto. Tem mais de 10 anos que em todo mês de janeiro eu vejo um cara com aquele reloginho ali, fingindo que vai asfaltar. E nego briga e briga e briga. Como tem esse tempo todo, eu nem sei se essa estrada vai sair. Nós fazemos abaixo-assinado pra asfaltar ou não, mas com 30 anos de ditadura militar nós perdemos essa voz. Isso não vai depender da gente; vai depender— desculpe o cinismo — da verba de empreiteira, do cara lá da cidade…; não vão levar em consideração se eu quero, ou se o outro não quer. Então eu não quero só fazer número na foto para uma coisa que vai ser decidida por outra gente em outro lugar. Eles só querem a foto… Eles, não sei quem…Eles, eles.
GUSTAVO: Uma sensibilidade maior para a arte pode melhorar a política?
GRANJA: O Nélson Lerner, um coroa lá de São Paulo, falava que se deveria inventar outra palavra, porque “arte” está muito desgastada, se confunde com amorzinho; é pão com arte, é tudo com arte. É uma coisa que tem dois lados. O lado legal é esse sentimento que não tem um nome melhor do que arte, que norteia uma identidade de um povo, uma comunicação, a melhora do cidadão, porque ele vai ficar mais sensivel, não vai entender só de um assunto, vai entender de poesia, de música… Todo mundo devia tocar música, todo mundo devia ser pintor, etc. Por outro lado, o empreendedor faz um shopping sem a menor condição de estacionamento, de nada, como aconteceu no Leblon, mas “em contrapartida” faz um “espaço para arte”. Aí é foda… Então, pelo lado legal a gente trabalha até de graça. Eu, o Fernando Fleury e o Toninho Barbosa saímos de Mauá sem um tostão e fomos fazer uma intervenção numa praça e numa avenida em São Paulo, chamados por um cara de lá. Nós ficamos uma semana em São Paulo fazendo essa coisa na praça em troca de comida; pelo prazer de estar interferindo, de dar um refresco na praça no meio daquele monte de carros passando, de melhorar um pouco o dia de uma pessoa. Hoje em dia, quando se pensa numa coisa dessas, tem que ter projeto, um monte de gente, ONGs… É muito cacique pra pouco índio. Antigamente, na minha visão, a gente era menos guloso materialmente. Tudo estava bom, você queria se expressar. Hoje em dia nego quer projeto, para pegar um dinheiro do deputado, do governo, da ONG tal. É uma estrutura que tem que ter fax, secretária. E essa estrutura fica tão grande, do tamanho da grana…, que o artista que vai ali ele acaba não ganhando nada… Tinha que simplificar: dá um dinheiro pro cara e diz: vai ali e pinta. Eu não penso em ganhar meu dinheiro com projeto público. Eu quero ganhar vendendo meus quadros. A coisa pública, o ideal é que eu doasse meu tempo para o público. Voltando à questão da minha infância, lá atrás: eu não quero ganhar do Estado mais do que eu mereço, porque quem está pagando é o povo brasileiro, sacou? E quando eu falo povo sou eu, é você, não é só o “coitadinho”. Quando eu falo de cultura não é só para o “pobrinho”, porque o cara é pobre e tem mais cultura do que a madame, muito mais do que a madame. Porque a cultura não é comprada na PUC, não. Então, é o contrário: nós temos que olhar a cultura que esse povo tem; ele é que tem a sabedoria. Pega um ditado popular: vale mais do que qualquer filósofo. E vou dizer mais uma coisa aqui, já que você me perguntou sobre se a arte pode melhorar as pessoas: o homem contemporâneo trocou a visita a galerias, a teatros, a bons filmes, pelo jantar com o chef. O cozinheiro virou o grande mito da arte hoje em dia. A classe média que tem um pouco mais de dinheiro trocou qualquer programa pelo jantar. O cara não quer ir na Grécia para ver um museu, ele só quer ir em restaurante.
GUSTAVO: E o Brasil hoje, com a esquerda tendo chegado ao poder?
GRANJA: Olha, eu chorei quando o Lula ganhou. Eu ouvi o Zé Dirceu naquela hora dizer que não iam esquecer os que tombaram pelo caminho. Quando veio o mensalão me deu fastio, nojo. Mas mesmo assim eu acho que o Lula ainda é o melhor até hoje. Porque o Lula foi o único que falou assim: “olha, vocês podem roubar à vontade” — que nem os outros falaram a vida inteira — “mas vamos guardar esse dinheirinho aqui para os mais miseráveis”. E hoje a gente está com um mercado interno que está salvando a gente dessa crise mundial. Mas o resto… , agora que eu já estou mais velho não sei nem se eles mandam… Então, a minha política é a seguinte: chega um menino aqui em casa e eu ensino um pouco de pintura a ele, dou um pouco do meu material a ele. Essa é a política. Se eu não fizer pelo meu vizinho, vou mandar um 171de que vou fazer por um cara lá da casa do cacête? A vida é mais do que a arte. Se eu puder me comunicar com alguém através da vida… A grande obra é a vida de cada um. E vou te dizer uma coisa, eu sou um tanto exaltado mas sou otimista; cada geração vai lutando e as coisas vão melhorando.
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