Adeus ao Professor Esteves
Publicado por Virgínia Calaes

No dia 19 de dezembro, as três mil pessoas que lotaram o Teatro da AMAN para assistir à formatura dos alunos das Faculdades Dom Bosco fizeram um minuto de silêncio em homenagem a seu fundador e presidente, professor Antonio Esteves, que falecera uma semana antes, no dia 12. Em seguida, a jornalista Virgínia Calaes, autora de um livro sobre Esteves, leu uma breve biografia , que transcrevemos abaixo.
“ Filho de pais portugueses, Antonio Esteves nasceu no Rio de Janeiro, no ano de 1924. O gosto pelos estudos, a vocação de professor e a vontade de ajudar o próximo manifestaram-se no menino Antonio desde muito cedo. Os livros eram seu brinquedo preferido. Na adolescência, montou uma escola em um barraco no fundo do quintal de sua casa, com carteiras fabricadas por ele utilizando caixas de bacalhau, onde alfabetizava adultos.
O menino Antonio cresceu, formou-se oficial do Exército na Academia Militar das Agulhas Negras, serviu fora de Resende, depois voltou e ficou – para aqui construir sua grande obra: a Associação Educacional Dom Bosco – AEDB, primeira instituição de ensino superior do município, fundada em 1964, empreitada pioneira, fruto de muita coragem e determinação.
Quatro décadas depois da criação da escolinha no fundo do quintal de sua casa, onde ensinava para meia dúzia de alunos, Antonio Esteves fundou uma faculdade para oferecer a centenas de jovens de Resende e da região a possibilidade de cursar o terceiro grau. Assim, Esteves passa a fazer, em escala maior, o que fizera, modestamente, no passado, lá no quintal de sua casa: a socialização do saber. Ele dizia sempre: “Na AEDB, nenhum aluno interromperá seu projeto de se formar, por falta de recursos financeiros”. Assim prof. Esteves praticava a democratização do ensino superior, facilitando aos mais carentes o acesso à faculdade, através da concessão de bolsas de estudo.
Antonio Esteves dedicou quase 50 anos de sua vida à educação, atividade exercida por ele como um sacerdócio. Deixou muitos discípulos para continuar sua obra. Imprimiu, de forma indelével, sua marca na AEDB, como administrador e como educador. Como administrador, ensinou que é preciso modernizar, sem abrir mão da tradição. Como educador, ele pregou para seus discípulos que o professor precisa ter entusiasmo para entusiasmar seus alunos. Ele costumava dizer que “o professor, quando entra na sala de aula, é uma luz que se acende. Se esta luz não está acesa no professor, ele não vai conseguir fazê-la acender nos alunos”.
Professor Esteves teve atuação marcante, também, na área da promoção social. Ainda estudante na AMAN, integrou o grupo de cadetes da Conferência Vicentina de São Maurício, responsável pela criação, em 1948, da Vila Vicentina – embrião do atual bairro de mesmo nome – formada, inicialmente, por seis casas para abrigar idosos e desempregados. Esta vila existe até hoje, lá na Vicentina, com 35 casas, garantindo moradia para cerca de 120 pessoas carentes.
Na década de 60, participou da criação da Liga Resendense contra a Tuberculose, entidade encarregada de prestar assistência aos portadores da doença. Em 1966, trabalhou ativamente na mobilização para socorrer as vítimas da grande enchente que castigou a cidade nesse ano.
E nos anos 70, liderou a organização da Feira da Providência que, durante 13 anos, foi realizada em Resende, tendo por finalidade angariar fundos para as entidades filantrópicas da cidade.
Sempre que era mencionada sua atuação humanitária na comunidade, professor Esteves dizia com humildade: “Servir ao próximo me dá alegria, me deixa feliz. Sou grato a Deus por ter-me dado condições de ajudar meus semelhantes”.
A extensa folha de serviço prestada por Antonio Esteves à comunidade o fez merecedor de muitas homenagens. Em 1977, recebeu o título de Cidadão Resendense concedido pela Câmara Municipal, que lhe conferiu, também, o título de Professor Emérito, em 1988, e a Comenda Conde de Resende, em 2002.
Em 2007, recebeu da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro a Medalha Tiradentes, concedida a “personalidades nacionais e estrangeiras que, além de se destacarem em suas atividades profissionais, tenham prestado serviço ao Estado, ao Brasil ou à humanidade”.
Com uma vida assim exemplar, tão plena de realizações altruístas, as portas do céu, com certeza, se abriram para deixar entrar prof. Esteves, no dia 12 de dezembro, quando ele nos deixou para se encontrar com o Pai Celestial que, certamente, o terá recebido com a alegria de quem espera a chegada de um filho dileto. Lá do alto, prof. Esteves estará abençoando aqueles que aqui ficaram com a enorme responsabilidade de continuar sua obra educacional.
Virgínia Calaes
Jornal Ponte Velha



