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Os “produtos” e o porco do Narciso

Publicado por Gustavo Praça

1- A miséria é a maior poluição. Esta é uma frase bem conhecida. A miséria, por sua vez, é o outro lado do acúmulo insensato. Gente dormindo nas calçadas e bolsas femininas de marca que custam uma fortuna são o mesmo fenômeno.
E a miséria não é só a de gente nas calçadas, mas também das mentalidades ao relento. Mentalidade ao relento que eu quero dizer é a incapaz de ver as coisas, porque há uma catarata que envolve as coisas num véu de glamour, ou de dinheiro, ou de função. Uma árvore não é mais uma árvore, mas sim um “dado” a ser pesado a partir de raciocínios que envolvem crédito carbono, floresta de eucalípto para derrubada em relação à florestas nativas, etc.
Esse véu empobrece porque nubla o espanto, tira o vigor que as coisas têm por si próprias, pelo tempo impensável em que se tornaram vida, em que se tornaram a quantidade de variações de asas rendadas de borboletas, de desenhos de folhas, de línguas que se falam. As coisas nesse planeta inacreditável, em meio a um universo árido, essas coisas, por sua história, seu mistério, seu milagre, sua raridade, sua gratuidade, estão em outro nível, muito superior a glamour, dinheiro ou função.
Esses últimos são criações humanas, e embora o Homem seja o milagre do milagre suas criações estão longe do peso que tem a criação da vida. Ele é a criatura que dá testemunho da vida. A sua grandeza está em relação a essa coisa muito maior que ele, que é a misteriosa evolução criadora. É por isso que ele se ajoelha — nas várias igrejas, conforme creia em diferentes mitos, ou mesmo, se “ateu”, na descampada igreja do Ser, onde o simples olhar para o alto ja faz qualquer um pisar de leve.
Eu desconfio que só se preserva a vida — porque se a respeita —  na medida em que se tira esse véu das coisas, porque aí é possível amá-las em si. É o caminho da arte.
E parece que estamos tomando um caminho inverso: achamos que pensando tudo como negócio, como “produto”, com o espírito de empresários, podemos preservar. É a idéia de que só o bolso resolve.
Como? Se “produto” não é coisa com valor em si? É uma função de gerar dinheiro Só podemos amar o que tem valor em si. Nossos “próximos” têm um valor que está acima da família vista como empreendimento. “Produto”, por seu caráter mercantil, é uma coisa imediatista. Se for comprado, está tudo ótimo. E a gente consegue vender qualquer coisa, os produtos são cada vez piores e o marketing é cada vez melhor.
O sujeito encosta o carro dele na beira da estrada e pergunta: “onde é a cachoeira?” Não interessa a ele o resto do rio, com tantos recantos. A cachoeira é “produto”, a ser “dada por vista”. Muitos até se contentam em olhá-la do carro mesmo. Talvez um dia projetemos a cachoeira num telão, para o “cliente” não precisar sair do ar condicionado que o envolve dentro do carro e fora do mundo.
Daí, que a maior ou menor quantidade de verba não resolve a questão. Não é questão de dinheiro, porque não é questão de “produto”. Verbas sempre têm destinos “maiores”, muito bem justificados em papel nesse nosso mundo de negócios. Desconfio que numa digna pobreza as coisas reluzam de novo. E a gente cuide do jardim com as próprias mãos, com nova idéia de técnica, que não encare a realidade como negócio. Vamos ter que ser novos. Mas nós, embora a parte mais brilhante do processo evolutivo, não estamos nunca prontos, o que, aliás, é a nossa salvação.

2- O Narciso morreu um dia desses. Foi encontrado na sua caxanga (casa humilde), de manhã, sentado numa cadeira. Ele era do Rio Grande do Norte. Analfabeto, calado, escuro, mistura de negro e índio, educado que só um príncipe. Trabalhava há mais de 30 anos fazendo reparos com a enxada nas estradas de terra do Alto Penedo. Era um camarada só, e por isso tinha sempre um cachorro como companheiro. Um deles, o Sargento, quando morreu foi um problema porque o Narciso entrou em depressão.
Houve uma época em que o Narciso teve um porco que educou como cachorro. No começo puxava o porco pela coleira, e depois o porco seguia ele tranquilamente. Nesse tempo o Narciso costumava ir na minha casa aos domingos para ver os Trapalhões na TV. O porco deitava no quintal perto da porta dos fundos e ficava esperando ele.
Pois bem: um dia ele chega um pouco mais calibrado — a solidão o levou ao alcoolismo —, esquece de ordenar ao porco para deitar do lado de fora e o porco entra na sala e deita num canto. Eu, minha mulher e meus filhos nos entreolhamos mas deixamos quieto. Tínhamos muito apreço pelo Narciso, ele estava com pouca condição de diálogo e, afinal, o chão da casa era de cimento liso, nem vermelhão tinha, não era lá grandes coisas.
Mas lá pelas tantas o porco levanta e caga no meio da sala. Aí foi demais. O próprio Narciso se deu conta de que a situação passara do limite. Levantou-se com dificuldade, expulsou o porco e ficou lá fora passando uma esculhambação nele. Uma noite tranquila, o céu estrelado, uns pés de milho no quintal e um sujeito cambaleante passando lição de moral num porco.
Este era o calado poeta Narciso, que um dia, comentando sobre não ligar muito para ser sozinho e não ter filhos para criar, ponderou que “criação de gente é difícil porque eles custam muito pra prestar”. De fato, um cavalo com dois anos já está prestando, e uma pessoa leva 18, 20 anos, e ainda tem que ver se presta. Mas o Narciso fazia a ressalva: “ também, quando presta é uma beleza!”

Foto: Apesar de serem “produtos” turísticos, as cachoeiras do Alto Penedo estão com os acessos detonados. Estradas esburacadas e encanamento exposto, constantemente vazando. Os turistas chegam às “atrações” pisando na lama, e os moradores ficam a toda hora sem água. É uma vergonha.

Gustavo Praça
Jornal Ponte Velha


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Um comentário adicionado em “Os “produtos” e o porco do Narciso”

  1. Kacá Versiani Disse:

    Ando muito com meus pés pelas ruas, estradas e trilhas de Penedo.
    E sempre, aqui e alí, estava passando por algum lugar onde estava Narciso, homem coberto por uma aura de paz. A simplicidade extrema, o olhar amigo, uma pessoa da terra, capinador dos mais antigos da Fazendinha, a parte alta de Penedo. Vivia miseravelmente com seu salário aviltante, pago pela prefeitura local. Mas no seu olhar não percebiamos revolta, mas uma coisa doce, diferente… Como homem, um exemplo amoroso. E agora, como recompensa, voltou ao seio de Deus. Lá, com certeza, vai receber o tratamento que merece, pois Deus é justo.
    Perdemos nós, ganha o Reino Invisível dos Céus.
    Vou sentir falta de sua presença…

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