O que há no olhar do menino?
Publicado por Chico Fortes

Ainda que o convencionalismo esmaeça a essência do evento;
Ainda que Papai Noel chegue sem misticismo,
sobre um par de roller skates;
Ainda que o esplendor dos brinquedos multicores
avive o conflito dos contrastes;
Ainda que, por isso, o palhaço triste da TV chore
pelas crianças que “estão lá fora”;
Ainda que haja o paradoxo de pratos cheios de nozes,
castanhas e avelãs, e pratos vazios de feijão;
Ainda que o mundo cheire de novo a pólvora e os gaviões
estejam esvoaçando assanhados;
Ainda que seja confrangedora (ou somente incômoda),
a imagem de esqueléticas crianças morrendo de fome;
Ainda que por tudo isso nos perguntemos, tantas vezes,
se o Menino chegou, de fato, a nascer;
Há, de repente, no Natal, o sopro de uma brisa de bondade;
Há, nesse dia, um momento em que o homem para
e pensa diante da singela imagem antiga do Presépio;
Há um despertar de um resto de ternura humana;
Há um renascer de insuspeitadas esperanças;
Há uma vaga de boa vontade solta pelo mundo;
Há um querer bem, sem exigências, aproximando os homens;
Há gestos tímidos de um último saldo de fraternidade;
Há uma centelha de fé bruxuleante.
E nesta paisagem cinza, a alma cinza do homem
vislumbra o nascimento do Menino;
E há algo diferente nesse Menino
(diferente da imagem do Presépio);
Há no olhar do Menino, que teima
em renascer no coração do homem,
um misto de apelo e chamamento;
Há um piedoso aceno de esperanças;
Há todo um comando à generosidade humana;
Há um relembrar do que foi dito há quase dois mil anos:
AMAI-VOS UNS AOS OUTROS.
Chico Fortes
Jornal Ponte Velha



