Jornal Ponte Velha

Alimente-se de Ponte Velha | RSS

Rio das Pedras embandeirado, a xícara e o forno de sauna

Publicado por Otávio Miranda

Há algum tempo e de maneira recorrente penso em registrar, de alguma forma, a perda de qualidade gradual e constante do nosso  Rio das Pedras. Quem sabe encontrei um meio de externar  e dividir com todos esta preocupação e, pelo menos para mim, profunda tristeza?
Em algumas oportunidades sou convidado a conversar com estudantes da rede municipal sobre este assunto, como aconteceu recentemente na E.M. Fernando Otávio Xavier, a convite do Prof. Rogério, como parte das atividades de comemoração da Semana do Meio Ambiente. É quando aproveito para encaixar o problema da nossa micro-bacia com o Ciclo Hidrológico,  com o entendimento das enchentes de verão, com a poluição, e como a água, por si só, atua como um agente diluente e solvente importante frente aos impactos causados pelo lançamento irregular de esgotos em seu curso.
Ao abordar as diversas formas de poluição que nosso rio vem sofrendo — seja pelo lançamento direto de esgoto doméstico sem qualquer tratamento, seja pela poluição física quando do lançamento de toda sorte de resíduos, direta ou indiretamente em seu leito, como também a poluição física que corresponderia às novas construções dentro de área protegida por lei e que, infelizmente, foram permitidas nestes últimos 10, 20 anos — procuro discutir com os jovens, nos quais sempre deposito muitas esperanças, a importância de sua atitude como cidadão na forma de como agir para não destruir o lugar onde, provavelmente, terão algum tipo de vínculo no futuro.
Preciso registrar ainda que, antes de escolher Penedo para residir, onde minha família freqüenta como turista desde o início dos  anos 50 e sendo  proprietária desde 1957, visitei alguns outros lugares para que minha decisão não fosse só influenciada por este forte laço. Lembro então de ter visitado Itaipava, distrito de Petrópolis. Na época  observei sinais de ter ocorrido uma enchente no  Rio Piabanha, que margeia parte do distrito, e ter observado que  a vegetação de suas margens, meio que deitadas pela enxurrada, estavam cobertas por muito resíduo de saco plástico multi-coloridos, garrafas pets, trapos etc etc. Um verdadeiro horror… (hoje já tenho notícia de reação daquela comunidade)  Na hora pensei, aqui jamais! Para encurtar, optei por Penedo.
Antes de comprar minha atual  residência, residi por 2 anos na casa de meus pais, cujo terreno fica próximo ao Rio das Pedras, onde na infância costumava  me esbaldar junto com um montão de irmãos e amigos, banhando, mergulhando e pescando lambaris e acarás em todos os seus poções. Pura alegria.
Ao longo dos primeiros meses de nova vida na colônia e depois de ter dado umas espiadas para o rio da ponte existente em frente a esta casa, resolvi tirar uns
pedaços de tijolos e cerâmicas que repousavam em seu leito e que insistiam em machucar o meu olhar. Resumo da ópera. Passei uma manhã inteira recolhendo tudo que possam  imaginar , inclusive um forno de sauna todo enferrujado. Repito… um forno de sauna. Cai na realidade.
Ah!! Minha esposa bem lembrou,  enquanto escrevo estas linhas……….. E a caneca??? É que recolhi também uma  caneca de café, Pozzani  Made in Brazil  Jundiaí SP (http://www.porcelanabrasil.com.br/p-pozzani.htm ), que por ironia do destino retrata uma Sra. sentada em uma cadeira em X, de costas, olhando o que parece ser um curso de água com uma vegetação em sua margem, tudo limpo e bem calmo. Guardo-a com carinho até hoje, sei lá porque ou para  quê. Portanto, não é de hoje que nosso rio vem sendo usado como bota fora de tudo.
É lógico e natural! Abandonamos a educação e construímos Brasília. Largamos a saúde e inventamos o tal Plano de Saúde. Educação esquecida, os problemas sociais (insegurança) crescem em escala exponencial. Criamos então as grades, câmeras de vigilância e os carros blindados. E sem educação, adeus rio das Pedras  da minha infância. E sem educação,  aonde pensamos chegar?… Puxa , tanta volta , para então retornar  ao título deste escrito.
Dia 11 de novembro próximo passado, chuvas fortes nas cabeceiras e nova enchente do rio.  Alagamentos por todo lado e pela primeira vez observo o Rio das Pedras, desde o trecho das 3 Cachoeiras, com  suas margens embandeiradas com toda sorte de lixo, quem sabe em homenagem ao Dia da Bandeira que se aproximava . Que pena ! Doravante assim será…
Cabe uma pergunta  ou reflexão… Se tanto ficou agarrado pela galhada das margens, quanto lixo foi parar no Paraíba? No Atlântico? Na barriga  das tartarugas e outros animais  indefesos ?????
Não perderei tempo em buscar culpados  pois, para mim, já está tudo bem claro. Ou voltamos nossos esforços para a educação de base em todo país ou, se ruim  está, aproveitem , porque vai piorar.
Outra vertente para  somar, seria através de uma postura da comunidade frente ao município e, apenas para ilustrar, cito trecho de um arrazoado de um desembargador de Santa Catarina que serve de suporte a uma Ação Civil Pública Ambiental com Pedido de Liminar movida pelo Promotor de Justiça Curador do Meio Ambiente do Ministério Público de Minas Gerais contra um
município poluidor:
“A geração atual não possui legitimidade para ‘enterrar’ um recurso natural de valor ambiental destinado às futuras gerações. O Direito Ambiental não permite isto, aliás, se assim o permitisse, estaria ‘enterrando’ o futuro das próximas gerações. É aí que entra a importância do exercício integral da cidadania, do Poder Judiciário e do Ministério Público. Poluir um curso d’água ou omitir-se na sua despoluição, seja em área urbana ou rural, é condenar a espécie humana à morte”.

Otávio Miranda
Jornal Ponte Velha


Artigos relacionados:


Deixe sua mensagem


Jazz Village Bistrô

Últimos Comentários



Twitter



desenvolvido por afonso praça sobre plataforma wordpress