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As trevas do Iluminismo e a República da Mantiqueira

Publicado por Marcos Cotrim

1) Falando no fim do mundo em 2012, a entrevista de Lino Matheus no último número do Ponte é um bom exemplo de realismo da geração alternativa que amadureceu em confronto com “a vida como ela é” e não como nossos sonhos gostariam que fosse. Mutatis mutandis, assim fez um Caetano Veloso chamando Lula de “analfabeto”, o que só vem reforçar minha tese de que o prurido da escolarização total no Brasil só serve para domesticar a massa, desenraizar o jovem de sua formação tradicional e desencaminhar a elite. Lula analfabeto esquivou-se dos três.
Parece por isso um pouco ingênuo apostar em métodos gerados pela razão iluminista para sanar as trevas que ela mesma projeta sobre questões sociais e ambientais. A virtual república da Mantiqueira ainda pode tornar-se realidade, se soubermos lidar com as sombras, as águas e as festas. A sociedade alternativa não será suficientemente alternativa sem essa conversão.
Está em questão se a era da tolerância e da filantropia superou de vez a era do discernimento e da caridade, que vivia ao Deus-dará, levando a sério a morte e rindo da própria sorte. Era que se baseava numa ética não-igualitária, capaz de conter todas as pessoas. (“Mesmo as respeitáveis”, observava Chesterton). Sua base religiosa (no pior sentido da palavra, por favor, para eu ter certeza de ser bem entendido) afirmava que todos são iguais porque são filhos do mesmo Deus e da mesma terra. (Embora muitos não o admitam, e prefiram descender de amebas cósmicas ou dos ancestrais do José Saramago.) Mas o fato é que tal igualdade reconhecia diferenças fundamentais e nos fazia cidadãos de uma república de lealdades e dependentes da compaixão uns dos outros.

2) Para Platão, que parece ter sido o primeiro sistematizador dessa ética, justiça era uma questão de diferenciação e respeito pela vocação pessoal; de afirmar o próprio lugar de realização. Sua ética não-igualitária está na base da trindade sócio-ecológica da filosofia matuta –  ócio, sombra e água fresca –, que aliás chega sempre atrasada à festa do progresso. No ritmo do trenzinho caipira, para não chocar demais algum escolarizado devoto do Grande Ser.
Nascer ultrapassado tem suas vantagens. Aqui, de onde estou sentado, matutando, nada é tão importante. Afinal, não sou nem serei amigo do rei. Platão tentou e virou escravo. Esqueceu-se de que os impérios não têm vizinhos, por definição. Principalmente o império das luzes, porque sua igualdade revolucionária nivela por baixo, sua liberdade de consumir aprisiona, e sua fraternidade planejada é uma hipocrisia autoritária.  Os cidadãos do império costumam esquecer que banir as trevas não é o mesmo que cultivar as sombras.
Quem respeita as sombras nunca viverá o apagão. Por isso, neste nosso tempo decadente em que até os templos ficaram iluminados demais, o lúdico ainda é o refúgio sombreado que sobra para muitos. Tal como uma partida de futebol, que tem sempre um final inesperado e depende da humanidade falha dos apitos, o destino do homem está sendo sempre jogado nas bolinhas de gude, e na dança das pipas, presas por um fio simbólico à vida útil, oraculares, afirmando o misterioso defeito de existir.

Marcos Cotrim
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